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O Bêbado
e o Pastor
Não preciso
dizer que Tabuí tem a maior concentração de bebuns
por metro quadrado do país, porque seria redundante. É
assim mesmo. Cidade pobre, pequena, sem emprego... povo sem instrução,
sem diversão, cheio de verminose, raquítico e anêmico...
a melhor maneira que os homens têm para aparecer e se auto-afirmar
é enchendo a cara, mesmo fiado, pois que dindim raramente dá
as caras por aquelas bandas. E as mulheres tabuienses, quase sempre
abstêmias, para não fugir à regra, passam a vida
reclamando dos seus homens porque bebem.
Naquela noite, na igreja dos crentes,
apareceu um bêbado. Pessoa estranha nas redondezas. Franzino,
unhas grandes, olhos vermelhos, cabelos desgrenhados, roupa suja,
barbicha crescida e, como qualquer bêbado que se preza, trocando
as pernas. O pastor, doido para conseguir fama e defender uns trocados
a mais, conquistando novos fiéis, diz pras suas nove ovelhas:
- Irmãos! Deusde qui vi esse home, fiquei arripiado... ele
tá co diabo na cacunda!...
- Amém! Aleluia! – responderam todos.
O bêbado, que tava era muito cansado,
não quis conversa. Foi logo se esparramando no banco da frente,
doido para um cochilo.
- Vamo expursá o demo deste infeliz, meus irmão?
- Amém! Aleluia!
- Se acheguem pra perto!
Fizeram roda em torno do recém-chegado que já dormia.
Dois irmãos pegam-no pelos braços e, um terceiro, pelas
pernas, obrigando-o a se levantar. O pastor joga-lhe um copo de água
fria – que dizia ser benta – no rosto.
- Ordeno, santanás! Deixa em paz esse pobre coitado! Arreda
pra lá, trem! Disaloja!
- Amém! Aleluia, irmão!
O bêbado consegue abrir um olho, na
maior má vontade e, sem entender a fria em que se metera, só
gunguna:
- Hã?!...
- Santanás! Vai pro teu mundo e abandona essa pobre alma!...
- Amém! Aleluia, irmão!
O bêbado vê seus brios feridos
e acha que estão passando dos limites. Abre os dois olhos bem
arregalados, macho por estar sendo subjugado por dois irmãos
dos mais nutridos e grita, em linguagem da classe bebum, toda cheia
de finesse:
- Larga deu, cambada de fedaputa! Hic!... Vai pros quinto dos inferno!
Hic!...
Calafrio geral na igreja. As cinco irmãs tapam os ouvidos escandalizadas
enquanto o pastor, com a bíblia encardida na mão esquerda,
força, com a direita, a cabeça do bêbado para
baixo e também grita, acertando no substantivo, mas errando
no verbo :
- Satanás! Disaloja daqui! Disaloja, já! Vamo! Disaloja!
O bêbado, puto da
vida com tanta insistência, já pronto até a se
converter para ter sossego e curtir seu sono, entrega os pontos.
- Ta bão! Hic!... Intão eu vô dizê! Mas
despois cêis me deixa em paz! Hic! Pode sê quarqué
uma?
- Disaloja, satanás! Disaloja já! Disaloja! Disalooooooooja!
- gritava, com toda a força dos pulmões, o pastor.
- Intão tá! Óiqui, vô dizê umas,
hic... Loja Pernambucana, Lojas Americana, hic, Loja Arapuã,
Casa Sirva... Tá bão? Taí! Já disse os
nome! Agora quero drumi! Amém! Aleluia! Inté! Hic!...
AUTOR: EURICO DE ANDRADE
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